segunda-feira, 2 de abril de 2012

As vias neuronais relacionadas com a motivação e o abuso de drogas

O hipotálamo, por suas funções integrativas, parece ser uma estrutura ideal de centro de controle da motivação, sequenciando e coordenando respostas motivacionais, assim como estruturas como o neocórtex e o sistema límbico (Robbins e Everitt, 1999). O hipotálamo também tem uma função importante no processo motivacional por exercer um controle no sistema nervoso autônomo (SNA) e endócrino. Assim, durante um comportamento motivado, o hipotálamo comanda as respostas do SNA ou endócrina para ajudar na execução desse comportamento. 
O organismo desenvolve várias formas de comportamento com o objetivo de obter recursos para a manutenção do equilíbrio homeostático e para a reprodução. Um desses recursos é o mecanismo da recompensa, que provoca e reforça determinado comportamento, sendo que necessidades biológicas e cognitivas definem a natureza da recompensa, e a disponibilidade da recompensa determina alguns parâmetros básicos da condição de vida do organismo (Schultz, 1998). Já o reforço é um processo pelo qual estímulos aumentam a probabilidade de respostas. As drogas de abuso provavelmente afetam os sistemas de reforço do cérebro, pois muitas delas potenciam os efeitos de reforço da estimulação elétrica cerebral. É como se as drogas acentuassem o prazer produzido por determinado nível de estimulação cerebral (Kandel et al, 1997).
Um dos principais sistemas neuronais envolvidos no processamento de informação de recompensa é o sistema dopaminérgico, além dos sistemas opióides, gabaérgico, glutamatérgico e serotonérgico (Weiss et al., 1996; Bienkowski et al., 1999; Di Chiara, 1995). Segundo Robbins e Everitt (1999), a dopamina está envolvida no comportamento de aproximação, na avaliação do efeito da recompensa, na recompensa relativa ao aprendizado e no efeito das substâncias que viciam.
Droga de abuso tem sido considerada, em muitos estudos, um caso especial de comportamento operante sustentado por reforço positivo (Johanson, 1978). O reforço positivo deriva da habilidade da droga provocar alterações na atividade e vias específicas de neurotransmissores, utilizados por reforços naturais como comida, água, sexo, dentre outros (Di Chiara e North, 1992; Koob, 1992). No contexto das drogas de abuso, muitos fatores de reforço contribuem para seu uso compulsivo durante o curso da dependência. A droga pode aumentar diretamente a probabilidade de ser auto-administrada através de reforço positivo (apresentação de um estímulo ou evento, seguidos de uma resposta,  com o aumento da freqüência desta resposta) ou negativo (freqüência da resposta aumenta com a remoção do estímulo após a resposta) (Rang et al., 2001; Di Chiara, 1995). O reforço positivo está relacionado com o efeito hedônico do uso da droga, enquanto o reforço negativo acontece, por ex. aumento do consumo da droga, na tentativa de diminuir os efeitos da síndrome de retirada (Rang et al., 2001).
As drogas abusivas são constituídas por aquelas que induzem uma sensação de desejo intenso (craving), incluindo a nicotina, os opiáceos, como a heroína, drogas estimulantes psicomotoras, como a cocaína e anfetaminas, e drogas que induzem depressão no sistema nervoso central (SNC), como o álcool.
Estimulantes psicomotores com alto potencial de abuso têm efeitos de provocar aumentos na viabilidade de neurotransmissão de monoaminas nas sinapses. Cocaína e anfetaminas, assim como opióides, nicotina e etanol, aumentam a viabilidade sináptica da DA, NE e 5-HT (serotonina), principalmente pelo bloqueio de recaptação dessas monoaminas. Entretanto, os efeitos de reforço dessas drogas dependem criticamente da  DA (Di Chiara 1995). Estudos de auto-adimistração endovenosa têm evidenciado a direta implicação da DA e, mais especificamente, do sistema mesolímbico dopaminérgico (localizado no NAc) neste processo (Koob et al, 1999). 
Os mecanismos pelos quais as drogas estimulam e interferem na transmissão dopaminérgica dependem da classificação a qual elas pertencem. Por exemplo, a cocaína aumenta os níveis de DA no meio extracelular, por bloquear sua proteína transportadora e conseqüentemente impedindo sua recaptação para o neurônio (Carboni et al., 1989). Analgésicos narcóticos, etanol, e nicotina estimulam um disparo que ativa unidades dopaminérgicas, sendo principal responsável pelo aumento da DA no meio extracelular, entretanto o mecanismo exato de como a DA é aumentada ainda não está esclarecido. Algumas hipóteses levantadas são: a. os narcóticos agem sobre o receptor-?, e esses por sua vez modulam a liberação de DA no NAc  (Gonzáles e Weiss, 1998). Por sua vez, o etanol deprime a ação do neurônio gabaérgico da substância negra, que exerce influência sobre o neurônio dopaminérgico (Calabresi et al., 1989).
A nicotina, possivelmente a droga que cria mais dependência e abuso, de modo semelhante, aumenta o nível de DA na via mesocorticolímbica (Balfour et al., 1998). Experimentos mostram que o grupo formado por fumantes evidencia mais sensação de busca e impulsividade do que o grupo controle; apresentando, assim, diferenças nos modelos de ativação entre o grupo controle e os dependentes. Isso apóia a hipótese de que a mente dos dependentes necessita mais estimulação para ser ativada. Desde que as drogas psicoativas ajam como recompensa e afetem diretamente regiões do sistema dopaminérgico como o NAc, essas diferenças podem ser interpretadas como o resultado do processo de vício (Schultz, 2001).
A hipótese dopaminérgica para a motivação e o uso de drogas 
Estudos realizados nas áreas comportamental, farmacológica e neuroquímica defendem que propriedades de reforço, do etanol (EtOH) por exemplo, são mediados pelo  NAc e pela DA (Koob e LeMoal, 1997). Segundo Koob (1994), a liberação da DA no NAc pode ser o fator preponderante para o desenvolvimento da dependência a várias drogas de abuso. Os neurônios dopaminérgicos, que passam informação ao NAc, estrutura pertencente ao sistema límbico, segundo alguns autores, são extremamente sensíveis a essas substâncias químicas, como o álcool (Bienkowski et al, 1999). O álcool é uma droga eficaz, que provoca dependência psicológica porque o estímulo adquire excessivas propriedades motivacionais, induzindo ao processo de craving (Schultz, 1998). Como resultado da persistente liberação de DA no NAc em resposta ao álcool, o estímulo associado a ela adquire um significado motivacional e emocional anormais que resultam no controle excessivo sobre o comportamento do viciado. Esse controle constitui a essência da adição (vício) (Di Chiara, 1997; Le et al., 2001).  
Segundo experimentos de monitorização da liberação da DA em animais apresentando comportamentos particulares, citados por Robbins e Everitt (1999),  diferentes sistemas dopaminérgicos têm sido apresentados: mesocortical, mesolímbico e mesoestriatal, que têm mostrado diferentes funções na ativação do comportamento, dependendo da estrutura alvo inervada por eles. Duas generalizações podem ser feitas: a projeção nigroestriatal dopaminérgica para o caudado e o putâmen participa da ativação do comportamento, causado por estímulos endógenos; e o sistema mesolímbico dopaminérgico que está envolvido na ativação de respostas para estímulos externos com propriedades de incentivo e motivacionais.
Pesquisas definem o circuito de recompensa na região mesocorticolímbica como sendo originário das células da área tegumentar ventral (ATV), que se projetam de vias do córtex anterior para o NAc, tubérculo olfatório, córtex frontal e, principalmente, para a amígdala. O circuito inclui conexões com o Hipotálamo e vias aferentes do NAc para o córtex límbico, córtex olfatório e amígdala. O núcleo central da amígdala tem implicação importante na expressão da emoção, incluindo estados de ansiedade e medo, assim como estados associados a respostas de consumação (Davis et al., 1994).
Embora o NAc pareça desempenhar um papel importante na recompensa das drogas de abuso, é sabido que a amígdala deva estar envolvida no aspecto emocional de busca do álcool e da droga (Yoshimotoa, 2000). O complexo amigdalóide está relacionado, anatomicamente, com o registro da memória e aspectos emocionais e motivacionais, além da formação de estímulos de reforço (McGaugh et al., 1996).  
Projeções eferentes da amígdala para a ATV parecem ser as únicas no sistema dopaminérgico AMY-ATV. O núcleo amigdalóide basolateral também envia suas fibras para o NAc (Yoshimotoa, 2000). Esses neurônios dopaminérgicos inervam diferentes estruturas como o NAc, tubérculo olfatório, corpo estriado e amígdala. Portanto, o NAc recebe vias eferentes de todas as estruturas límbicas e corticolímbicas, incluindo a amígdala. Projeções da amígdala para o NAc é a saída crucial no estabelecimento de estímulos neuronais assim como no reforço no caso das drogas. Existe a hipótese de que a amígdala e suas projeções tenham os mesmos locais para a ação dopaminérgica e serotoninérgica do álcool para mediar o reforço do mesmo, por causa dos locais de recompensa no cérebro (Ex.,Euforia), considerados contribuintes para o abuso do álcool (Yoshimotoa, 2000). 
A teoria dopaminérgica exerce importante papel no processo motivacional no que tange ao uso de drogas de abuso (Di Chiara, 1997; Schult, 1998). Berridge e Robinson, 1998, separam os estados motivacional e de recompensa, afirmando que o sistema dopaminérgico é necessário somente para os estímulos do desejo, mas não para o reforço do prazer.
O processo motivacional e o sistema serotonérgico
  
Enquanto a DA tem papel importante na regulação da auto-estimulação nos animais e do prazer no homem, outros transmissores também estão envolvidos. Segundo Stahl (1998), a serotonina é um neurotransmissor do SNC que também está relacionada com o estado motivacional e resposta a drogas de abuso. Segundo Lovinger (1999), as drogas de abuso, como o álcool por exemplo, interagem com a transmissão serotonérgica no cérebro de diferentes maneiras. A exposição ao álcool (aguda ou crônica) altera vários aspectos das funções sinápticas da serotonina. Os níveis dos metabólitos de serotonina na urina e no sangue aumentam após um episódio agudo, indicando uma liberação aumentada de serotonina no sistema nervoso (LeMarquand et al., 1994). Esse aumento pode refletir transmissão intensificada nas sinapses serotonérgicas. 
A exposição crônica ao álcool pode levar a alterações adaptativas dentro das células cerebrais. Esse processo, também chamado tolerância, presumivelmente é o mecanismo para restabelecer a função celular normal, ou homeostasia, em resposta às alterações contínuas induzidas pelo álcool. Por exemplo, se a exposição ao álcool inibe a função de um receptor de um neurotransmissor, as células podem tentar compensar a inibição contínua por aumentar o número de receptores ou por alterar a composição molecular dos receptores ou das membranas celulares, assim o álcool não mais inibe a função do receptor. O receptor 5-HT2 parece sofrer tais mudanças adaptativas. Assim, o número de receptores 5-HT2 e seus sinais químicos aumentam em animais de laboratório por diversas semanas. A atividade aumentada no receptor 5-HT2, causada pela exposição crônica ao álcool, pode também contribuir para a Síndrome de Abstinência ao álcool – o padrão de comportamentos ocorrendo quando o álcool é retirado após uso crônico (Lovinger, 1997). 



 http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n3/130.html