O hipotálamo, por suas funções
integrativas, parece ser uma estrutura ideal de centro de controle da motivação,
sequenciando e coordenando respostas motivacionais, assim como estruturas
como o neocórtex e o sistema límbico (Robbins e Everitt,
1999). O hipotálamo também tem uma função importante
no processo motivacional por exercer um controle no sistema nervoso autônomo
(SNA) e endócrino. Assim, durante um comportamento motivado, o hipotálamo
comanda as respostas do SNA ou endócrina para ajudar na execução
desse comportamento.
O organismo desenvolve várias
formas de comportamento com o objetivo de obter recursos para a manutenção
do equilíbrio homeostático e para a reprodução.
Um desses recursos é o mecanismo da recompensa, que provoca e reforça
determinado comportamento, sendo que necessidades biológicas e cognitivas
definem a natureza da recompensa, e a disponibilidade da recompensa determina
alguns parâmetros básicos da condição de vida
do organismo (Schultz, 1998). Já o reforço é um processo
pelo qual estímulos aumentam a probabilidade de respostas. As drogas
de abuso provavelmente afetam os sistemas de reforço do cérebro,
pois muitas delas potenciam os efeitos de reforço da estimulação
elétrica cerebral. É como se as drogas acentuassem o prazer
produzido por determinado nível de estimulação cerebral
(Kandel et al, 1997).
Um dos principais sistemas neuronais
envolvidos no processamento de informação de recompensa é
o sistema dopaminérgico, além dos sistemas opióides,
gabaérgico, glutamatérgico e serotonérgico (Weiss
et al., 1996; Bienkowski et al., 1999; Di Chiara, 1995). Segundo Robbins
e Everitt (1999), a dopamina está envolvida no comportamento de
aproximação, na avaliação do efeito da recompensa,
na recompensa relativa ao aprendizado e no efeito das substâncias
que viciam.
Droga de abuso tem sido considerada,
em muitos estudos, um caso especial de comportamento operante sustentado
por reforço positivo (Johanson, 1978). O reforço positivo
deriva da habilidade da droga provocar alterações na atividade
e vias específicas de neurotransmissores, utilizados por reforços
naturais como comida, água, sexo, dentre outros (Di Chiara e North,
1992; Koob, 1992). No contexto das drogas de abuso, muitos fatores de reforço
contribuem para seu uso compulsivo durante o curso da dependência.
A droga pode aumentar diretamente a probabilidade de ser auto-administrada
através de reforço positivo (apresentação de
um estímulo ou evento, seguidos de uma resposta, com o aumento
da freqüência desta resposta) ou negativo (freqüência
da resposta aumenta com a remoção do estímulo após
a resposta) (Rang et al., 2001; Di Chiara, 1995). O reforço positivo
está relacionado com o efeito hedônico do uso da droga, enquanto
o reforço negativo acontece, por ex. aumento do consumo da droga,
na tentativa de diminuir os efeitos da síndrome de retirada (Rang
et al., 2001).
As drogas abusivas são constituídas
por aquelas que induzem uma sensação de desejo intenso (craving),
incluindo a nicotina, os opiáceos, como a heroína, drogas
estimulantes psicomotoras, como a cocaína e anfetaminas, e drogas
que induzem depressão no sistema nervoso central (SNC), como o álcool.
Estimulantes psicomotores com alto
potencial de abuso têm efeitos de provocar aumentos na viabilidade
de neurotransmissão de monoaminas nas sinapses. Cocaína e
anfetaminas, assim como opióides, nicotina e etanol, aumentam a
viabilidade sináptica da DA, NE e 5-HT (serotonina), principalmente
pelo bloqueio de recaptação dessas monoaminas. Entretanto,
os efeitos de reforço dessas drogas dependem criticamente da
DA (Di Chiara 1995). Estudos de auto-adimistração endovenosa
têm evidenciado a direta implicação da DA e, mais especificamente,
do sistema mesolímbico dopaminérgico (localizado no NAc)
neste processo (Koob et al, 1999).
Os mecanismos pelos quais as drogas
estimulam e interferem na transmissão dopaminérgica dependem
da classificação a qual elas pertencem. Por exemplo, a cocaína
aumenta os níveis de DA no meio extracelular, por bloquear sua proteína
transportadora e conseqüentemente impedindo sua recaptação
para o neurônio (Carboni et al., 1989). Analgésicos narcóticos,
etanol, e nicotina estimulam um disparo que ativa unidades dopaminérgicas,
sendo principal responsável pelo aumento da DA no meio extracelular,
entretanto o mecanismo exato de como a DA é aumentada ainda não
está esclarecido. Algumas hipóteses levantadas são:
a. os narcóticos agem sobre o receptor-?, e esses por sua vez modulam
a liberação de DA no NAc (Gonzáles e Weiss,
1998). Por sua vez, o etanol deprime a ação do neurônio
gabaérgico da substância negra, que exerce influência
sobre o neurônio dopaminérgico (Calabresi et al., 1989).
A nicotina, possivelmente a droga
que cria mais dependência e abuso, de modo semelhante, aumenta o
nível de DA na via mesocorticolímbica (Balfour et al., 1998).
Experimentos mostram que o grupo formado por fumantes evidencia mais sensação
de busca e impulsividade do que o grupo controle; apresentando, assim,
diferenças nos modelos de ativação entre o grupo controle
e os dependentes. Isso apóia a hipótese de que a mente dos
dependentes necessita mais estimulação para ser ativada.
Desde que as drogas psicoativas ajam como recompensa e afetem diretamente
regiões do sistema dopaminérgico como o NAc, essas diferenças
podem ser interpretadas como o resultado do processo de vício (Schultz,
2001).
A hipótese dopaminérgica
para a motivação e o uso de drogas
Estudos realizados nas áreas
comportamental, farmacológica e neuroquímica defendem que
propriedades de reforço, do etanol (EtOH) por exemplo, são
mediados pelo NAc e pela DA (Koob e LeMoal, 1997). Segundo Koob (1994),
a liberação da DA no NAc pode ser o fator preponderante para
o desenvolvimento da dependência a várias drogas de abuso.
Os neurônios dopaminérgicos, que passam informação
ao NAc, estrutura pertencente ao sistema límbico, segundo alguns
autores, são extremamente sensíveis a essas substâncias
químicas, como o álcool (Bienkowski et al, 1999). O álcool
é uma droga eficaz, que provoca dependência psicológica
porque o estímulo adquire excessivas propriedades motivacionais,
induzindo ao processo de craving (Schultz, 1998). Como resultado da persistente
liberação de DA no NAc em resposta ao álcool, o estímulo
associado a ela adquire um significado motivacional e emocional anormais
que resultam no controle excessivo sobre o comportamento do viciado. Esse
controle constitui a essência da adição (vício)
(Di Chiara, 1997; Le et al., 2001).
Segundo experimentos de monitorização
da liberação da DA em animais apresentando comportamentos
particulares, citados por Robbins e Everitt (1999), diferentes sistemas
dopaminérgicos têm sido apresentados: mesocortical, mesolímbico
e mesoestriatal, que têm mostrado diferentes funções
na ativação do comportamento, dependendo da estrutura alvo
inervada por eles. Duas generalizações podem ser feitas:
a projeção nigroestriatal dopaminérgica para o caudado
e o putâmen participa da ativação do comportamento,
causado por estímulos endógenos; e o sistema mesolímbico
dopaminérgico que está envolvido na ativação
de respostas para estímulos externos com propriedades de incentivo
e motivacionais.
Pesquisas definem o circuito de recompensa
na região mesocorticolímbica como sendo originário
das células da área tegumentar ventral (ATV), que se projetam
de vias do córtex anterior para o NAc, tubérculo olfatório,
córtex frontal e, principalmente, para a amígdala. O circuito
inclui conexões com o Hipotálamo e vias aferentes do NAc
para o córtex límbico, córtex olfatório e amígdala.
O núcleo central da amígdala tem implicação
importante na expressão da emoção, incluindo estados
de ansiedade e medo, assim como estados associados a respostas de consumação
(Davis et al., 1994).
Embora o NAc pareça desempenhar
um papel importante na recompensa das drogas de abuso, é sabido
que a amígdala deva estar envolvida no aspecto emocional de busca
do álcool e da droga (Yoshimotoa, 2000). O complexo amigdalóide
está relacionado, anatomicamente, com o registro da memória
e aspectos emocionais e motivacionais, além da formação
de estímulos de reforço (McGaugh et al., 1996).
Projeções eferentes
da amígdala para a ATV parecem ser as únicas no sistema dopaminérgico
AMY-ATV. O núcleo amigdalóide basolateral também envia
suas fibras para o NAc (Yoshimotoa, 2000). Esses neurônios dopaminérgicos
inervam diferentes estruturas como o NAc, tubérculo olfatório,
corpo estriado e amígdala. Portanto, o NAc recebe vias eferentes
de todas as estruturas límbicas e corticolímbicas, incluindo
a amígdala. Projeções da amígdala para o NAc
é a saída crucial no estabelecimento de estímulos
neuronais assim como no reforço no caso das drogas. Existe a hipótese
de que a amígdala e suas projeções tenham os mesmos
locais para a ação dopaminérgica e serotoninérgica
do álcool para mediar o reforço do mesmo, por causa dos locais
de recompensa no cérebro (Ex.,Euforia), considerados contribuintes
para o abuso do álcool (Yoshimotoa, 2000).
A teoria dopaminérgica exerce
importante papel no processo motivacional no que tange ao uso de drogas
de abuso (Di Chiara, 1997; Schult, 1998). Berridge e Robinson, 1998, separam
os estados motivacional e de recompensa, afirmando que o sistema dopaminérgico
é necessário somente para os estímulos do desejo,
mas não para o reforço do prazer.
O processo motivacional e o sistema
serotonérgico
Enquanto a DA tem papel importante
na regulação da auto-estimulação nos animais
e do prazer no homem, outros transmissores também estão envolvidos.
Segundo Stahl (1998), a serotonina é um neurotransmissor do SNC
que também está relacionada com o estado motivacional e resposta
a drogas de abuso. Segundo Lovinger (1999), as drogas de abuso, como o
álcool por exemplo, interagem com a transmissão serotonérgica
no cérebro de diferentes maneiras. A exposição ao
álcool (aguda ou crônica) altera vários aspectos das
funções sinápticas da serotonina. Os níveis
dos metabólitos de serotonina na urina e no sangue aumentam após
um episódio agudo, indicando uma liberação aumentada
de serotonina no sistema nervoso (LeMarquand et al., 1994). Esse aumento
pode refletir transmissão intensificada nas sinapses serotonérgicas.
A exposição crônica
ao álcool pode levar a alterações adaptativas dentro
das células cerebrais. Esse processo, também chamado tolerância,
presumivelmente é o mecanismo para restabelecer a função
celular normal, ou homeostasia, em resposta às alterações
contínuas induzidas pelo álcool. Por exemplo, se a exposição
ao álcool inibe a função de um receptor de um neurotransmissor,
as células podem tentar compensar a inibição contínua
por aumentar o número de receptores ou por alterar a composição
molecular dos receptores ou das membranas celulares, assim o álcool
não mais inibe a função do receptor. O receptor 5-HT2
parece sofrer tais mudanças adaptativas. Assim, o número
de receptores 5-HT2 e seus sinais químicos aumentam em animais de
laboratório por diversas semanas. A atividade aumentada no receptor
5-HT2, causada pela exposição crônica ao álcool,
pode também contribuir para a Síndrome de Abstinência
ao álcool – o padrão de comportamentos ocorrendo quando o
álcool é retirado após uso crônico (Lovinger,
1997).
http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n3/130.html